quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Lembre-se deles




Após a morte de um filho o maior medo de um pai é o esquecimento, em especial quando seu filho parte tão pequenino que nem teve tempo para deixar grandes marcas no mundo. 

Quando o Noah morreu, ele tinha apenas 20 dias de vida. 

Não tenho fotos de sua carinha, nem roupas com seu cheiro... Mas lembro perfeitamente dos contornos de seu corpo, o calor da sua pele lisinha e seus trejeitos de menino peralta dando ‘cambalhotas’ na incubadora ao ouvir a minha voz. 

Sou mãe e posso afirmar que ele está presente em todos os meus dias, mesmo que eu não possa mais desfrutar da sua deliciosa presença física há quase dois anos, eu sinto meu filhote perto de mim o tempo todo. Seja na borboleta que insiste em pousar ao meu lado, seja na roupinha de menino sapeca exposta na vitrine de uma loja infantil... eu sempre converso com ele, lembro do que vivemos juntos, choro, sorrio e crio memórias novas imaginando como ele teria sido... é um dos papos mais gostosos que tenho com o paizinho dele... podemos ficar horas imaginando...

Mas para o mundo eu sei que não é assim e temo que meu bebê seja esquecido, que sua memória seja apagada pela rotina. Por isso, continuo a falar dele, a lembrar dele e a contar a todos sobre sua existência. 

Sua passagem por este mundo foi breve, mas deixou marcas expressivas e grandiosas em minha vida, ele merece ser lembrado!


Se você tem uma mãe ou um pai enlutado em sua vida e não sabe o que fazer para ajudar, deixo mais uma preciosa dica: lembre-se de nossos filhos. Fale deles. Não tenha medo, pois este é o presente mais precioso que você pode nos dar. 

Abaixo a tradução de um texto da Emily Long, bem curtinho, mas cheio de amor, que descreve tão bem este pedido de uma mãe enlutada.


Lembre-se deles

12 de agosto de 2016 por Emily Long*


Tradução/Translation: Roberta Modulo 
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother to an angel called Noah)
Contato: contato@robertamodulo.com.br


Recentemente alguém me perguntou se havia alguma coisa, algo unicamente importante, que eu gostaria de pedir às pessoas em relação à morte e o luto por minhas filhas.

Fiquei surpresa em ver como minha resposta veio fácil – há muitas coisas importantes que eu poderia ter dito, mas esta rapidamente surgiu como a mais importante:

Lembre-se delas.

Lembre-se de seus nomes.

Lembre-se que elas viveram.

Lembre-se que sou sua mãe.

Lembre-se que elas foram e são amadas.

Lembre-se delas.                               

Para mim, além da ausência delas, minha maior dor é o medo que elas sejam esquecidas. Perdidas entre o tempo e espaço. Pois há tão pouca prova física de que elas estiveram aqui, até a memória delas desaparecerá para todos, exceto para mim.

Então, por favor, lembre-se delas.

Não apenas quando o sofrimento é recente e novo. Lembre-se delas mesmo que anos e décadas tenham se passado e elas ainda assim, terão partido.

Lembre-se que elas viveram.

Lembre-se que eu as carreguei.

Lembre-se que eu sou sua mãe – naquele momento, agora, sempre. Mesmo quando eu tiver 90 anos e me preparando para deixar esta Terra, elas ainda serão minhas e eu serei delas.

Lembre-se que elas foram e são e serão para sempre amadas.

Lembre-se delas.

Para sempre.

* Sobre Emily Long
Emily é mãe de duas filhas que partiram muito cedo.  Na faculdade, ela vivenciou a morte de seu noivo. Alguns meses depois, sua filha, Grace, nasceu sem vida. Depois de muito anos, Emily finalmente procurou apoio e criou uma comunidade que a ajudou a encontrar beleza na vida novamente, após suas perdas. Quando sofreu o aborto de sua segunda filha, Lily, fornecer apoio para outros pais em luto tornou-se uma paixão e uma missão. Emily é psicoterapeuta de apoio ao sofrimento e defensora das famílias que sofrem a perda de seus filhos. Ela tem interesse em trabalhar com mães sem filhos vivos e é autora do livro “Invisible Mothers” (Mães Invisíveis).
Emily acrescenta ao seu trabalho com famílias em sofrimento, o equilíbrio entre experiência pessoal e profissional. Além de promover apoio individual às mães e pais em luto, Emily se esforça para instruir e melhorar o cuidado às mães em luto por profissionais da saúde e outros psicoterapeutas. Ela escreve e instrui através de seu website http://emilyrlong.com.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Amor




Há mais de um ano e meio convivo com a presença diária da saudade.

Em certos dias, sinto muito mais a falta do Noah. Em outros dias, a saudade é tanta que paralisa meu corpo. São nesses dias que minha alma se afunda nas lágrimas e só encontro forças quando me apego ao maior legado que meu filho deixou: o amor.

Não há nada nesse mundo que anule esse amor, nem a tristeza nem a morte irão triunfar diante de um amor tão puro e profundo.

São nesses dias incrivelmente difíceis que eu me agarro a este amor, este laço perpétuo que existe entre meu filho e eu. Só assim é possível seguir em frente.

Foi em um dia desses, no começo de maio, que me deparei com um lindo vídeo no Facebook. Uma das muitas páginas que sigo e falam sobre luto, saudade e a perda de um filho postou este vídeo como parte de um projeto maravilhoso chamado The Bereaved Mother’s Love Project (Projeto O Amor da Mãe em Luto).

Imagens expressando a forma mais pura do amor e palavras que tocaram a minha alma me motivaram a entrar em contato com a autora, Jessica Snapp, mais uma mãe de anjo que busca espalhar o amor pelo mundo, enquanto ajuda a remendar corações partidos.

Essa jornada tem me ensinado muito e tenho sido muito agraciada pela amizade, mesmo que virtual, de pessoas em várias partes do mundo. É como se fizéssemos parte de uma irmandade, de um grupo que não fazemos questão de fazer parte, mas aqui estamos.

Jessi permitiu que eu traduzisse suas palavras, que estão estampadas na Still Standing Magazine desde 2015.

Uma linda surpresa, palavras que descrevem com tamanha exatidão o que passa dentro de meu coração confuso...

Tenho certeza de que há um laço invisível de amor que nos une e que, de alguma maneira, nossos anjos estão juntos em suas nuvens, olhando por nós e nos aproximando propositalmente.


* Conheça o lindo trabalho da Jessi: http://luminouslightstudio.com/

* Assista o vídeo clicando aqui 


O Amor de Uma Mãe Enlutada

12 de Outubro de 2015 por Jessi Snapp*

Tradução/Translation: Roberta Modulo 
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother to an angel called Noah)
Contato: contato@robertamodulo.com.br


*****



Existe um amor tão puro, tão terno, tão forte.
Um amor que transcende a vida e transborda dentro e fora de outros reinos.
É mais alto do que as estrelas que preenchem os céus iluminados pela lua.
Maior do que a própria Terra.
Mais profundo que os locais proibidos do oceano.
Um amor que irradia mais brilho do que o sol e que suga tão impiedosamente quanto um buraco negro.
Um amor intransponível, em todos os aspectos.
É um amor que transcende o tempo e é completamente infindável.
É livre.


Existe um amor tão sagrado, tão querido e verdadeiro.
Um amor que é incompreensível para o mundo ao seu redor.
Um amor que pode existir onde as pessoas acreditam que não existiria.
Um amor tão perfeitamente enraizado nas profundezas de seu coração, de sua alma.
Um amor que faz com que o resto do mundo pareça frio e cinza porque a sua beleza e profundidade é incomparável.
E ao mesmo tempo, derrama uma beleza na terra nunca vista antes.


Nada se compara a esse amor.


Este amor – sim, ele existe.
Ele existe e nós vivemos para contar a história de como ele possa existir ainda que não possamos enxergá-lo.
Com pouca evidência tangível remanescente, ele ainda sobrevive.
Ainda mais – ele prospera.
Ele cresce.
Mais e mais a cada dia este amor floresce e se alastra como flores silvestres durante a primavera em um campo intocado.
Os rios deste amor nunca secam e as rajadas de seu vento nunca cessam.


A profundeza e a intensidade deste amor são do tipo que você só ouviu falar em contos de fadas e histórias de ‘viveram felizes para sempre’ – ainda que esteja presente em algo muito distante disso.
Este amor reside na incerteza e instabilidade.
Permanece em lágrimas silenciosas e braços dolorosamente vazios. 
É a luz no local mais isolado.
Ele vive para contar o conto do que foi e não é mais.
Este amor repousa nos irreparáveis pedaços de nossas almas e nas feridas abertas de nossos corações despedaçados.
Ele se equilibra elegantemente com alegria nos lugares mais escuros de desolação e desespero.
Mas ainda na escuridão, ele continua a crescer e se alegrar.


Ele é beleza e caos libertos em um mesmo fôlego.


Este amor – este amor imutável, inabalável, indestrutível – é o amor de um coração partido.
Este amor pertence a uma mãe enlutada.
Pois mesmo na morte, ela ama infinitamente.
Ainda que na escuridão, seu amor é cintilante.
Nem a morte poderia extinguir este amor, pois é um amor como nenhum outro.
Sem comparações e sem precedentes – é verdadeiramente único.


O lindo amor entre mãe e filho – colocado em teste e esticado muito além do ponto de ruptura.
Ainda assim permanece intocado – apenas cresce mais forte a cada esticada.
O mundo aguarda de braços cruzados o rompimento deste laço.
Para que a mãe enlutada o deixe partir – e desista.
Mal sabem eles que irão esperar por uma eternidade.


O amor de uma mãe enlutada é extremamente forte.
Uma força tão poderosa que nada fica em seu caminho.
Nem o tempo nem a morte podem mudar.
Nem a tristeza nem a dor podem quebrá-lo.


Este amor – é o nosso amor.
Ele sobrevive quando eles não sobreviveram.
É o amor que ocupa o espaço em nossos corações e em nossas vidas onde eles estiveram.
Este amor reserva um espaço sagrado para eles.
Só existe porque eles viveram.
Permanece ainda que eles tenham partido.
Não é teoria nem ficção – é uma verdade inacreditável, poderosa.


O amor de uma mãe enlutada é inacreditável, feroz, interminável, que desafia todas as probabilidades.


Este amor se enraizou em cada célula de meu corpo e pulsa em minhas veias com propósito e significado.
Este amor limpou minha alma.
Mudou meu ser.
Este amor ilumina o peso da perda.
Pois este amor torna a dor mais suportável.
Faz até com que, talvez, valha a pena.


A morte não me define – é a vida e este amor que me definem.
É este amor que mudou o curso da minha vida e me separou do resto do mundo.
Este amor – é o meu amor.
E por toda a minha vida - eu jamais o deixarei partir.
É a única coisa que ata minha alma despedaçada.
Este amor – é o que me faz seguir em frente.
É o eco que ressoa em tudo o que eu faço.
E em tudo o que eu sou.


Não importa a distancia, não importa o tempo – este amor prevalece.


E é meu.

*****


* Conheça o lindo trabalho da Jessi: http://luminouslightstudio.com/

* Assista o vídeo clicando aqui 


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Empatia e Pena





Este vídeo foi sugerido pela Franchesca Cox em seu artigo sobre o Segredo da Empatia que você pode ler a tradução que fiz aqui.

Muito fofo e didático, uma maneira simples de compreender o real significado de empatia e como esta qualidade se diferencia da pena.

Um texto que nos ajuda a refletir sobre a forma que lidamos com os outros e suas dores. 

O desenho tem como narração trechos de uma palestra da Dra Brené Brown e abaixo, minha tradução para facilitar a compreensão de todos.




Qual a diferença entre empatia e pena?

Empatia abastece a conexão, a pena leva à desconexão.  

Empatia é muito interessante. Teresa Wiseman é uma acadêmica de enfermagem que estudou diversas profissões onde a empatia é relevante e então chegou a quatro qualidades da empatia: compreensão da perspectiva (a habilidade de compreender o ponto de vista de outra pessoa ou reconhecer a perspectiva dela como verdadeira), não julgar (não é fácil quando  a maioria de nós gostamos de fazê-lo), reconhecer emoções em outras pessoas e então comunicar essas emoções.

Empatia é sentir com as pessoas.

E para mim, eu sempre acho que empatia é este espaço sagrado, quando alguém está em um buraco profundo e grita lá do fundo dizendo:

“Estou preso. Está escuro. Estou arrasado.”

E então, nós olhamos, descemos até lá e dizemos: “Ei, eu sei como são as coisas aqui em baixo e você não está sozinho.”

Sentir pena é “Oh, que chato, heim? Hmm, você quer um sanduíche?”

Empatia é uma escolha e uma escolha vulnerável porque para se conectar com você eu tenho que me conectar com algo dentro de mim que me mostre este sentimento.

Raramente, talvez nunca, uma resposta empática começa com “pelo menos”. E fazemos isso o tempo todo, porque alguém acabou de compartilhar algo conosco que é incrivelmente doloroso e tentamos colorir isso, procurando um lado bom no problema alheio.

“Sofri um aborto.”
“Pelo menos você sabe que pode engravidar.” 

“Acho que meu casamento está desmoronando.”
“Pelo menos você tem um casamento.”

“John está sendo expulso da escola.”
“Pelo menos Sarah é uma aluna excelente.”

Mas algo que quase sempre fazemos ao enfrentar uma conversa difícil é tentar transformá-la em algo melhor. Se eu divido com você algo que é muito difícil, eu prefiro que você diga “Eu nem sei o que te dizer, apenas estou grato por você ter me contado.”

Porque a verdade é que raramente uma resposta pode fazer com que algo melhore.

O que faz as coisas melhorarem é a conexão.


O Segredo da Empatia







Esta semana, após um trágico acidente de ônibus na serra entre Mogi e Bertioga, muitas vidas jovens foram perdidas... nossa cidade vizinha está em luto pelas dezenas de vidas que deixam sonhos, projetos e famílias incompletas.

Ao receber esta notícia, eu chorei. 

Chorei porque conheço a dor da perda tão intimamente e assim, me coloco na situação destes pais e mães, que hoje choram a partida tão precoce de seus amados filhos. 

Divido com eles minhas lágrimas e meu mais profundo pesar, mesmo sem conhecê-los pessoalmente. 

O nome deste sentimento é empatia.  A habilidade de colocar-se no lugar do outro. Habilidade que venho aprimorando após a morte do meu pequeno Noah.

O texto que posto hoje é uma tradução de um artigo da querida Franchesca Cox. Um texto destinado a todas as pessoas que buscam ajudar alguém em luto, mas não sabem como.

Como ela mesma diz, não é um texto sobre o que você pode DIZER a um pai em luto. É um texto sobre o que você pode FAZER.

Se você tem uma pessoa por perto que está de luto por alguém querido, espero de todo o meu coração que este texto aqueça o seu coração e que você dê o primeiro passo em direção à empatia. 

Ao confortar uma pessoa amada, que esteja de luto, lembre-se: não precisamos de seus conselhos. Precisamos de seu carinho.


O Segredo da Empatia

5 de Maio de 2016 por Franchesca Cox*

Tradução/Translation: Roberta Modulo 
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother to an angel called Noah)
Contato: contato@robertamodulo.com.br

Este texto é para os amigos. Os colegas de trabalho. Os que amam. A família.

Este texto é para você. 

Prometo que não é um artigo sobre as “10 coisas que você nunca deve fazer ou dizer”. Não irei te atacar. Ao contrário, te convidarei a pensar sobre o poder de uma arma secreta chamada empatia. O único presente verdadeiro que você pode dar a uma mãe em luto. 

Você que tem uma mãe enlutada em sua vida, já esgotou seu arsenal de frases e não tem ideia de como ajudar. Ou talvez você tenha mantido distância porque não sabe o que fazer ou dizer. Mas no fundo o que você deseja mais que tudo, é fazê-la sentir-se melhor.

Talvez você esteja indo bem, mas se você é como a maior parte do mundo civilizado, sentiria-se melhor usando suas ‘roupas de baixo’ em público do que ao lado de alguém que está sofrendo muito com o luto. Todos nós tememos o desconhecido e, para a maioria de nós, isso inclui perder alguém muito importante, alguém que seria impossível imaginar viver sem. 

Tudo bem que você se sinta um pouco perdido ao ajudar esta mãe. Mas antes que você sugira que ela deva fazer terapia – não porque você está cansado de ouvi-la falando sobre isso, mas porque você acha que falar com você não está ajudando – considere que ela esteja falando com você por um motivo. E para registrar, eu sou a favor da terapia. Fiz por um tempo, e valeu a pena… mas este não é o objetivo deste artigo.
  
E para sua surpresa, se ela está falando com você, ela está exatamente onde ela gostaria de estar, e provavelmente onde precisava estar.

Ela escolheu você.

Ela precisa de você.

Ela não precisa que alguém a conserte, porque palavras, presentes, tempo ou dinheiro não podem consertar o que aconteceu.

Se ela está falando com você, é por uma razão muito, muito boa. Ela confia em você.

E mesmo que não pareça que ela esteja conseguindo ajuda ao conversar, ela está. Ela pode falar o nome de seus filhos e esta é a coisa mais preciosa que você pode dar a ela neste momento. A liberdade, a fantástica desculpa para dizer o nome dele ou dela. 

De novo. E de novo. E de novo.

Ela precisa de alguém neste planeta que nunca vai se cansar de ouvi-la falar sobre seu bebê, seu filho, o filho adulto que ela jamais imaginaria viver sem. É uma ordem não natural das coisas, e ela vai passar o resto de sua vida tentando encontrar o chão sob seus pés.

O segredo da empatia é sentir como se não tivesse feito nada e ainda assim você se sente exausto – significa que você fez a coisa certa. 

Empatia tem um preço. Vai te chacoalhar e te tirar da sua zona de conforto e te colocar no lugar dela. Será necessário ir além de apenas imaginar a vida dela, sua dor, sua perda e a grandeza de tudo isso. Você irá carregar todos esses sentimentos como um casaco pesado e ensopado. Vai te levar à beira das lágrimas. 

E é aí que você vai querer parar. 

Mas a empatia vai além dos limites da compaixão e da pena.

A empatia fará você sentir como se não tivesse feito nada além de permitir que ela continue mergulhada na tristeza.

A empatia vai desligar a sua vontade de consertar seu mundo quebrado e fará com que você se sente sobre os escombros junto dela. (assista o vídeo)

Empatia é invisível aos que passam, mas para uma mãe em luto é a única coisa que coloca um pouco de cor em seu mundo novamente.

O poder da empatia dará a ela a liberdade de amar um filho que ela mal conheceu.

O poder da empatia é profundo. 

Você sente como se não tivesse feito nada, pois fisicamente você fez muito pouco, apenas segurou a sua mão, sentou-se silenciosamente e ouviu. 

Mas na verdade, você moveu montanhas.

"Aprendi que as pessoas se esquecem do que você diz e se esquecem do que você fez, mas as pessoas jamais irão esquecer o que você as fez sentir."

Maya Angelou


***
Sobre Franchesca Cox*
Ela escreve, ela pinta, ela se esforça para escolher o AMOR a todo momento. Junte-se ao seu heArtwork no Instagram e Facebook.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Lembre-se das Mães de Coração Partido


Este é o meu segundo dia das mães. É também a segunda vez que encaro esta data sem a presença física do meu filho, Noah, mas com a certeza absoluta de que ele está bem perto de mim.

A data deveria ser repleta de alegria, mas é cinza. Amarga. Sem graça.

Mesmo assim, preciso sobreviver a ela.

Como se não bastasse a dor que carregamos dentro do peito pela ausência de nossos filhos, nós, mães com o coração partido, ainda precisamos lidar com a desinformação de pessoas antes tão próximas e que hoje acreditam que o silêncio é a melhor alternativa. 

Não as julgo, pois antigamente eu também não saberia como lidar com esta situação, e peço perdão caso tenha ferido o sentimento de alguém quando optei pelo silêncio ao invés do conforto. 

Mas a vida me colocou nesta posição. Creio que meu filhote tinha sim uma missão nessa Terra, acredito que seu legado deva continuar vivo, um legado de amor, muito amor.

Então, escolhi disseminar o conhecimento que tenho adquirido, para que as pessoas aprendam com a morte, e não apenas a ignore. 

Para que as pessoas disseminem o amor, confortando umas as outras. 

Deixo aqui um pedido em meu nome, e em nome de todos os pais em luto: por favor, não nos ignore. Nem hoje, nem nunca.

Dispensamos seus conselhos e suas frases prontas, repletas de ‘pelo menos ele não sofreu’, ‘ele cumpriu seu tempo’,  ‘Deus precisava de outro anjo’ ou ‘Você terá outros filhos’... 

Mas aceitamos, de coração aberto, o seu carinho, seu abraço, seu reconhecimento e sua amizade. 

A tradução abaixo fala sobre como confortar uma mãe em luto nesse dia das mães. Escrito pela mãe de anjo Lexi Behrndt, originalmente em seu site Scribbles and Crumbs em 2015 e este ano publicado novamente na Still Standing Magazine

São sete pedidos muito simples, que toda mãe (e pai) em luto gostaria de fazer aos seus amigos e familiares.  

Espero que gostem.




7 Maneiras de Lembrar das Mães de Coração Partido neste Dia Das Mães


6 de Maio de 2016 por Lexi Behrndt


Tradução/Translation: Roberta Modulo (Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother to an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br


Neste Dia das Mães, lembre-se das mães de coração partido.

Lembre-se daquelas com o coração de mãe e nenhum filho para chamar de seu. 

Lembre-se daquelas com os braços dolorosamente vazios. 

Lembre-se daquelas com os olhos cansados de noites sem sono, sem conseguir dormir com saudade do pequenino que capturou seu coração de mãe no instante em que eles se conheceram. 

Lembre-se daquelas que nunca tiveram seus ‘primeiros’: primeiro sorriso, primeiro aniversário, primeiro dia de aula, nem mesmo os primeiros choros. 

Lembre-se daquelas que jamais ouvirão “mamãe” daqueles pequeninos lábios.   


Esta vida pode ser cruel, mas juntos, nós podemos torná-la um lugar seguro para as mamães com o coração partido neste Dia das Mães.

Se você tem uma mamãe com o coração partido em sua vida – pode ser uma amiga ou um familiar, faça com que este dia seja um pouco mais fácil para ela. 

Lembre-se dela. 

Reconheça-a.

Aqui estão sete maneiras de amá-la neste dia:

1. Se ela perdeu um filho, diga o nome de seu filho. 

Esta é a coisa mais importante que você pode fazer por ela neste dia: dizer o nome de seu filho. Diga seu apelido. Fale qualquer coisa que a faça entender que você está se lembrando de seu filho neste dia. Não importa quão desconfortável você se sinta, saiba que ela certamente não se esqueceu. Deixe com que ela saiba que você também não esqueceu. 

2. Se ela perdeu seu filho único, reconheça sua maternidade. 

Como minha querida amiga que perdeu sua filha de (quase) 4 anos disse esse ano: “Eu quero que as pessoas se lembrem que eu ainda sou mãe.”  Se ela perdeu seu filho único, ela certamente ainda é mãe, como sempre será, ainda que seu filho não esteja mais em seus braços. Por favor, lembre-se disso. Você não tem ideia do quanto o reconhecimento, até mesmo o menor de todos, pode amenizar o peso em seu coração. 

3. Mesmo que ela tenha outro filho, ainda assim a dor é muito real. 

Não importa quantos filhos ela tenha, isso jamais ameniza a dor de perder um ou mais filhos. Cada filho é único.  Cada um é insubstituível.

4. Reconheça seu coração de mãe. 

Para aquelas que desejam ser mães, mas enfrentam a infertilidade ou as coisas nunca deram certo, por favor, reconheça-as. Há mulheres caminhando por aí com filhos e filhas que não deram a luz, mas que elas amam como seus. Reconheça estas mamães. Faça com que saibam que elas são valorizadas e amadas.

5. Permita que ela esteja onde quiser neste dia. 

Ela pode não saber o que será mais benéfico – a distração de uma companhia ou a solidão. Reduza suas expectativas neste dia. Ela não está ‘louca’, ela está sofrendo. Tenha piedade. Tenha compreensão. Se ela quiser ficar chorosa e largada o dia todo, deixe que fique. Se ela decidir que será mais fácil não falar sobre isso, não pressione. Dê a ela a liberdade de ser quem ela é, e faça com que ela saiba que você irá amá-la, não importa em que maneira ela esteja.

6. Não faça suposições. 

Se você supõe que ela não gostaria de ser incluída em algum tipo de reunião, deixe-a decidir. Apenas aproxime-se. Ame-a. Convide-a. Receba-a e deixe que ela decida o que ela consegue encarar. Se ela escolher não vir, não leve isso pelo lado pessoal e saiba que ela está apenas tentando sobreviver a um dia difícil.

7. Ame-a. 

Talvez você more longe, envie um bilhete ou uma nota de 5 dólares para um café ou um sorvete. Se você está por perto, pergunte como você pode expressar seu amor por ela neste dia. Talvez ela queira participar de uma reunião familiar, certifique-se que ela saiba que é bem vinda. Talvez ela não queira sair de casa, convide-a para o jantar. Talvez ela queira se encher de porcarias e assistir Netflix de pijamas, jantando sorvete; ofereça-se para levar vinho e pipoca. Seja um amigo, e lembre-a que ela é amada.

Lembre-se dessas mães de coração partido. 

Com sua gentileza, seu amor e compaixão, elas podem enfrentar o mais difícil dos dias. 

Mostre que você se importa.


Noah pelos olhos de seu primo, Matheus.


segunda-feira, 2 de maio de 2016

Somos Todas Mães


Sinal de alerta no ar... Dia das mães se aproximando...

De todas as datas comemorativas, talvez esta seja a mais complicada para mim. 

Já ouvi dizer, inúmeras vezes, que o primeiro ano de luto é o mais difícil, pois nos deparamos com situações diversas, pela primeira vez. O primeiro Natal, o primeiro aniversário, o primeiro dia das mães e dos pais etc.

Depois, tudo ficaria mais fácil, pois eu já saberia o que estava por vir e poderia me preparar.

Mas esta 'regra' não funcionou para mim. 

É uma de minhas características (e não me orgulho disso) sofrer por antecipação. Em tudo. E assim, sofro duas vezes. Sempre.

Com a aproximação de datas especiais, eu sofro antes, durante e depois, e já ter passado por isso antes, não ameniza a minha dor. Pelo contrário, aumenta. 

Sim, porque sei exatamente o tamanho do vazio que carrego dentro do peito e quanta falta o Noah me faz todos os dias.

Datas comemorativas só intensificam a dor da saudade. 

Saber que não vou poder buscar meu indiozinho ou meu vampirinho na escola, não ansiar a chegada do Coelhinho da Páscoa ou Papai Noel, não enrolar brigadeiros ou embalar presentes... é devastador...

Se tudo é tão doloroso, porque será que o Dia das Mães seja tão complicado?

Porque além da ausência do meu filho, há o esquecimento. A falta de reconhecimento. As temidas frases ‘clichês’.  

É triste saber que a morte de um filho anula a maternidade da mãe e a paternidade do pai.

Mas não deveria ser assim. Não precisa ser assim. Afinal, somos todas mães. 

Abaixo a tradução do artigo escrito por Emily Long, que descreve lindamente a maternidade.


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Somos Todas Mães

30 de abril de 2015, por Emily Long*

Tradução/Translation: Roberta Modulo 
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother of an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br




Minha maternidade sem filhos não é tão diferente da sua, você que têm a alegria e o privilégio de criar seus filhos aqui na Terra.

Aparentemente, nossa maternidade parece ser diferente. 

A minha é raramente reconhecida pela sociedade em geral ou até mesmo por aqueles que estão próximos a mim. 

Minha casa é quieta e não há bagunça de brinquedos, ou roupas e sapatos espalhados. Minha agenda é preenchida por trabalho, amigos e tempo livre - que gira em torno dos meus interesses, ao invés de aulas de ballet, de futebol ou de música e atividades escolares. Eu posso sair com amigos ou viajar de última hora sem precisar me preocupar com babás ou creches. 

Meu Dia das Mães não será preenchido com um pequenino e criativo café da manhã na cama, ou cartões escritos em giz de cera, ou bracinhos ao redor do meu pescoço. Terei sorte se minha maternidade for ao menos reconhecida no Dia das Mães.

São essas as maneiras que tornam nossa maternidade diferente. Não invejo a sua versão de maternidade. Eu sou profundamente grata por você ter seu filho ao seu lado e não ter que entender a dor de dizer adeus para sempre. Tenho momentos de ciúmes e inveja quando desejo desesperadamente que eu pudesse conhecer a sua maternidade também, mas eu jamais desejo que você conhecesse a minha.

Apesar de nossas diferenças, também há muitas semelhanças em nossa experiência como mães. A força do amor profundo e avassalador que senti quando segurei o corpinho minúsculo de minha filha... Como eu olhei seu rosto e procurei por pequenos traços de mim mesma e de seu pai, em sua feição minúscula. Olhar para ela e me maravilhar com sua a perfeição, ainda que seu corpo estivesse parado e em silêncio, e pensar comigo mesma que nunca havia visto ninguém tão lindo.

E então, naqueles meses após seu nascimento e morte, eu também vivenciei noites sem dormir, choro sem fim e uma exaustão avassaladora. Exceto que eu experimentei noites sem dormir acordando apenas com os sonhos do choro de meu bebê, pulando da cama para pegá-la e então perceber que ela não estava lá. O interminável choro e lamento que explode das profundezas do meu sofrimento é por ela, ao invés de sua fome, sua solidão ou desconforto. 

Minha exaustão veio da tentativa de dar sentido a um mundo no qual o impensável não era apenas possível, mas também real e estava acontecendo comigo.

Como você, eu também marco as etapas do desenvolvimento de minha filha. Talvez não exatamente como você, que tem uma criança que vive e respira, e pode acompanhar o cumprimento dessas etapas, mas da minha própria maneira. 

Eu marco as etapas do desenvolvimento de minha filha em minha mente, enquanto imagino como ela seria. Ela estaria engatinhando agora, ou talvez ela já estivesse andando. Eu a levaria para seu primeiro dia no jardim da infância, a sua primeira festa do pijama, à sua primeira festinha na escola. Eu a inscreveria nas aulas de música, futebol ou ginástica. Ela iria aprender a ler, aprenderia as capitais dos estados e, pelo amor de Deus, eu espero que ela fosse melhor em matemática do que eu.

Ao assistir as crianças ao meu redor, cada momento e a cada etapa alcançada, eu marco em minha mente e em meu coração, fico imaginando quem ela seria e como teria sido assisti-la alcançando essas etapas. Eu sinto aquela dorzinha por dentro enquanto imagino-a crescendo e tornando-se ela mesma, assim como outras mães contam que se sentem enquanto assistem seus filhos crescerem e tornarem-se eles mesmos e mais independentes. 

Nós duas pensamos, em nossa própria maneira, quem ele será/seria? Em quem ele se tornará/tornaria?

Todas as mães devem aprender a deixar seus filhos irem. 

Mães com filhos vivos deixam seus filhos partirem em pequenos momentos, ao longo do tempo. Seu primeiro dia de escola. Sua primeira festa do pijama. Quando eles entram no Ensino Médio. Quando eles têm seu primeiro encontro. Quando eles tiram sua carteira de motorista. O dia que eles vão morar sozinhos. O dia em que eles se casam. Quando eles têm seus próprios filhos. Aqueles momentos em que eles te observam envelhecer e começam a cuidar mais de você. Cada pequeno momento de desapego e confiança de que seus filhos estarão bem. Confiando em seus filhos ao navegarem pelo mundo, mais e mais independentes, contando cada vez menos do nosso auxílio.

Para mim, o desapego foi súbito e imprevisível. 

Veio de repente, e antes que eu entendesse o que estava acontecendo, ela partiu. Em um instante ela estava aqui e na sequência, fui forçada a dizer adeus para sempre. Naquele momento, e em todos os momentos desde então, eu tenho que acreditar que, onde quer que ela esteja agora, ela está bem e está encontrando seu caminho mesmo sem mim. Sou lembrada de meu desapego a todo instante que poderia ter sido e cada etapa não concluída de como sua vida teria sido ao meu lado.

Então, você entende que, de certa forma nossa experiência de maternidade é muito diferente. Mas, no entanto, não somos tão diferentes assim.

Nós amamos.

Nós cuidamos.

Nós choramos.

Nós sonhamos.

Nós honramos.

Nós imaginamos.

Nós nos perguntamos.

E todas nós devemos um dia deixá-los seguir.

Estamos nisso juntas, não importa como nossa maternidade pareça do lado de fora.

Porque somos mães.

Somos todas mães.


* Sobre Emily Long
Emily é mãe de duas filhas que partiram muito cedo.  Na faculdade, ela vivenciou a morte de seu noivo. Alguns meses depois, sua filha, Grace, nasceu sem vida. Depois de muito anos, Emily finalmente procurou apoio e criou uma comunidade que a ajudou a encontrar beleza na vida novamente, após suas perdas. Quando sofreu o aborto de sua segunda filha, Lily, fornecer apoio para outros pais em luto tornou-se uma paixão e uma missão. Emily é psicoterapeuta de apoio ao sofrimento e defensora das famílias que sofrem a perda de seus filhos. Ela tem interesse em trabalhar com mães sem filhos vivos e é autora do livro “Invisible Mothers” (Mães Invisíveis).
Emily acrescenta ao seu trabalho com famílias em sofrimento, o equilíbrio entre experiência pessoal e profissional. Além de promover apoio individual às mães e pais em luto, Emily se esforça para instruir e melhorar o cuidado às mães em luto por profissionais da saúde e outros psicoterapeutas. Ela escreve e instrui através de seu website http://emilyrlong.com.