Sinal de alerta no ar... Dia das mães se aproximando...
De todas as datas comemorativas, talvez esta seja a mais complicada para mim.
Já ouvi dizer, inúmeras vezes, que o primeiro ano de luto é o mais difícil, pois nos deparamos com situações diversas, pela primeira vez. O primeiro Natal, o primeiro aniversário, o primeiro dia das mães e dos pais etc.
Depois, tudo ficaria mais fácil, pois eu já saberia o que estava por vir e poderia me preparar.
Mas esta 'regra' não funcionou para mim.
É uma de minhas características (e não me orgulho disso) sofrer por antecipação. Em tudo. E assim, sofro duas vezes. Sempre.
Com a aproximação de datas especiais, eu sofro antes, durante e depois, e já ter passado por isso antes, não ameniza a minha dor. Pelo contrário, aumenta.
Sim, porque sei exatamente o tamanho do vazio que carrego dentro do peito e quanta falta o Noah me faz todos os dias.
Datas comemorativas só intensificam a dor da saudade.
Saber que não vou poder buscar meu indiozinho ou meu vampirinho na escola, não ansiar a chegada do Coelhinho da Páscoa ou Papai Noel, não enrolar brigadeiros ou embalar presentes... é devastador...
Se tudo é tão doloroso, porque será que o Dia das Mães seja tão complicado?
Porque além da ausência do meu filho, há o esquecimento. A falta de reconhecimento. As temidas frases ‘clichês’.
É triste saber que a morte de um filho anula a maternidade da mãe e a paternidade do pai.
Mas não deveria ser assim. Não precisa ser assim. Afinal, somos todas mães.
Abaixo a tradução do artigo escrito por Emily Long, que descreve lindamente a maternidade.
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Somos Todas Mães
30 de abril de 2015, por Emily Long*
Texto original em/Source: http://stillstandingmag.com/2015/04/mothers/
Tradução/Translation: Roberta Modulo
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother of an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br
Minha maternidade sem filhos não é tão diferente da sua, você que têm a alegria e o privilégio de criar seus filhos aqui na Terra.
Aparentemente, nossa maternidade parece ser diferente.
A minha é raramente reconhecida pela sociedade em geral ou até mesmo por aqueles que estão próximos a mim.
Minha casa é quieta e não há bagunça de brinquedos, ou roupas e sapatos espalhados. Minha agenda é preenchida por trabalho, amigos e tempo livre - que gira em torno dos meus interesses, ao invés de aulas de ballet, de futebol ou de música e atividades escolares. Eu posso sair com amigos ou viajar de última hora sem precisar me preocupar com babás ou creches.
Meu Dia das Mães não será preenchido com um pequenino e criativo café da manhã na cama, ou cartões escritos em giz de cera, ou bracinhos ao redor do meu pescoço. Terei sorte se minha maternidade for ao menos reconhecida no Dia das Mães.
São essas as maneiras que tornam nossa maternidade diferente. Não invejo a sua versão de maternidade. Eu sou profundamente grata por você ter seu filho ao seu lado e não ter que entender a dor de dizer adeus para sempre. Tenho momentos de ciúmes e inveja quando desejo desesperadamente que eu pudesse conhecer a sua maternidade também, mas eu jamais desejo que você conhecesse a minha.
Apesar de nossas diferenças, também há muitas semelhanças em nossa experiência como mães. A força do amor profundo e avassalador que senti quando segurei o corpinho minúsculo de minha filha... Como eu olhei seu rosto e procurei por pequenos traços de mim mesma e de seu pai, em sua feição minúscula. Olhar para ela e me maravilhar com sua a perfeição, ainda que seu corpo estivesse parado e em silêncio, e pensar comigo mesma que nunca havia visto ninguém tão lindo.
E então, naqueles meses após seu nascimento e morte, eu também vivenciei noites sem dormir, choro sem fim e uma exaustão avassaladora. Exceto que eu experimentei noites sem dormir acordando apenas com os sonhos do choro de meu bebê, pulando da cama para pegá-la e então perceber que ela não estava lá. O interminável choro e lamento que explode das profundezas do meu sofrimento é por ela, ao invés de sua fome, sua solidão ou desconforto.
Minha exaustão veio da tentativa de dar sentido a um mundo no qual o impensável não era apenas possível, mas também real e estava acontecendo comigo.
Como você, eu também marco as etapas do desenvolvimento de minha filha. Talvez não exatamente como você, que tem uma criança que vive e respira, e pode acompanhar o cumprimento dessas etapas, mas da minha própria maneira.
Eu marco as etapas do desenvolvimento de minha filha em minha mente, enquanto imagino como ela seria. Ela estaria engatinhando agora, ou talvez ela já estivesse andando. Eu a levaria para seu primeiro dia no jardim da infância, a sua primeira festa do pijama, à sua primeira festinha na escola. Eu a inscreveria nas aulas de música, futebol ou ginástica. Ela iria aprender a ler, aprenderia as capitais dos estados e, pelo amor de Deus, eu espero que ela fosse melhor em matemática do que eu.
Ao assistir as crianças ao meu redor, cada momento e a cada etapa alcançada, eu marco em minha mente e em meu coração, fico imaginando quem ela seria e como teria sido assisti-la alcançando essas etapas. Eu sinto aquela dorzinha por dentro enquanto imagino-a crescendo e tornando-se ela mesma, assim como outras mães contam que se sentem enquanto assistem seus filhos crescerem e tornarem-se eles mesmos e mais independentes.
Nós duas pensamos, em nossa própria maneira, quem ele será/seria? Em quem ele se tornará/tornaria?
Todas as mães devem aprender a deixar seus filhos irem.
Mães com filhos vivos deixam seus filhos partirem em pequenos momentos, ao longo do tempo. Seu primeiro dia de escola. Sua primeira festa do pijama. Quando eles entram no Ensino Médio. Quando eles têm seu primeiro encontro. Quando eles tiram sua carteira de motorista. O dia que eles vão morar sozinhos. O dia em que eles se casam. Quando eles têm seus próprios filhos. Aqueles momentos em que eles te observam envelhecer e começam a cuidar mais de você. Cada pequeno momento de desapego e confiança de que seus filhos estarão bem. Confiando em seus filhos ao navegarem pelo mundo, mais e mais independentes, contando cada vez menos do nosso auxílio.
Para mim, o desapego foi súbito e imprevisível.
Veio de repente, e antes que eu entendesse o que estava acontecendo, ela partiu. Em um instante ela estava aqui e na sequência, fui forçada a dizer adeus para sempre. Naquele momento, e em todos os momentos desde então, eu tenho que acreditar que, onde quer que ela esteja agora, ela está bem e está encontrando seu caminho mesmo sem mim. Sou lembrada de meu desapego a todo instante que poderia ter sido e cada etapa não concluída de como sua vida teria sido ao meu lado.
Então, você entende que, de certa forma nossa experiência de maternidade é muito diferente. Mas, no entanto, não somos tão diferentes assim.
Nós amamos.
Nós cuidamos.
Nós choramos.
Nós sonhamos.
Nós honramos.
Nós imaginamos.
Nós nos perguntamos.
E todas nós devemos um dia deixá-los seguir.
Estamos nisso juntas, não importa como nossa maternidade pareça do lado de fora.
Porque somos mães.
Somos todas mães.
* Sobre Emily Long
Emily é mãe de duas filhas que partiram muito cedo. Na faculdade, ela vivenciou a morte de seu noivo. Alguns meses depois, sua filha, Grace, nasceu sem vida. Depois de muito anos, Emily finalmente procurou apoio e criou uma comunidade que a ajudou a encontrar beleza na vida novamente, após suas perdas. Quando sofreu o aborto de sua segunda filha, Lily, fornecer apoio para outros pais em luto tornou-se uma paixão e uma missão. Emily é psicoterapeuta de apoio ao sofrimento e defensora das famílias que sofrem a perda de seus filhos. Ela tem interesse em trabalhar com mães sem filhos vivos e é autora do livro “Invisible Mothers” (Mães Invisíveis).
Emily acrescenta ao seu trabalho com famílias em sofrimento, o equilíbrio entre experiência pessoal e profissional. Além de promover apoio individual às mães e pais em luto, Emily se esforça para instruir e melhorar o cuidado às mães em luto por profissionais da saúde e outros psicoterapeutas. Ela escreve e instrui através de seu website http://emilyrlong.com.

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