sexta-feira, 10 de junho de 2016

O Segredo da Empatia







Esta semana, após um trágico acidente de ônibus na serra entre Mogi e Bertioga, muitas vidas jovens foram perdidas... nossa cidade vizinha está em luto pelas dezenas de vidas que deixam sonhos, projetos e famílias incompletas.

Ao receber esta notícia, eu chorei. 

Chorei porque conheço a dor da perda tão intimamente e assim, me coloco na situação destes pais e mães, que hoje choram a partida tão precoce de seus amados filhos. 

Divido com eles minhas lágrimas e meu mais profundo pesar, mesmo sem conhecê-los pessoalmente. 

O nome deste sentimento é empatia.  A habilidade de colocar-se no lugar do outro. Habilidade que venho aprimorando após a morte do meu pequeno Noah.

O texto que posto hoje é uma tradução de um artigo da querida Franchesca Cox. Um texto destinado a todas as pessoas que buscam ajudar alguém em luto, mas não sabem como.

Como ela mesma diz, não é um texto sobre o que você pode DIZER a um pai em luto. É um texto sobre o que você pode FAZER.

Se você tem uma pessoa por perto que está de luto por alguém querido, espero de todo o meu coração que este texto aqueça o seu coração e que você dê o primeiro passo em direção à empatia. 

Ao confortar uma pessoa amada, que esteja de luto, lembre-se: não precisamos de seus conselhos. Precisamos de seu carinho.


O Segredo da Empatia

5 de Maio de 2016 por Franchesca Cox*

Tradução/Translation: Roberta Modulo 
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother to an angel called Noah)
Contato: contato@robertamodulo.com.br

Este texto é para os amigos. Os colegas de trabalho. Os que amam. A família.

Este texto é para você. 

Prometo que não é um artigo sobre as “10 coisas que você nunca deve fazer ou dizer”. Não irei te atacar. Ao contrário, te convidarei a pensar sobre o poder de uma arma secreta chamada empatia. O único presente verdadeiro que você pode dar a uma mãe em luto. 

Você que tem uma mãe enlutada em sua vida, já esgotou seu arsenal de frases e não tem ideia de como ajudar. Ou talvez você tenha mantido distância porque não sabe o que fazer ou dizer. Mas no fundo o que você deseja mais que tudo, é fazê-la sentir-se melhor.

Talvez você esteja indo bem, mas se você é como a maior parte do mundo civilizado, sentiria-se melhor usando suas ‘roupas de baixo’ em público do que ao lado de alguém que está sofrendo muito com o luto. Todos nós tememos o desconhecido e, para a maioria de nós, isso inclui perder alguém muito importante, alguém que seria impossível imaginar viver sem. 

Tudo bem que você se sinta um pouco perdido ao ajudar esta mãe. Mas antes que você sugira que ela deva fazer terapia – não porque você está cansado de ouvi-la falando sobre isso, mas porque você acha que falar com você não está ajudando – considere que ela esteja falando com você por um motivo. E para registrar, eu sou a favor da terapia. Fiz por um tempo, e valeu a pena… mas este não é o objetivo deste artigo.
  
E para sua surpresa, se ela está falando com você, ela está exatamente onde ela gostaria de estar, e provavelmente onde precisava estar.

Ela escolheu você.

Ela precisa de você.

Ela não precisa que alguém a conserte, porque palavras, presentes, tempo ou dinheiro não podem consertar o que aconteceu.

Se ela está falando com você, é por uma razão muito, muito boa. Ela confia em você.

E mesmo que não pareça que ela esteja conseguindo ajuda ao conversar, ela está. Ela pode falar o nome de seus filhos e esta é a coisa mais preciosa que você pode dar a ela neste momento. A liberdade, a fantástica desculpa para dizer o nome dele ou dela. 

De novo. E de novo. E de novo.

Ela precisa de alguém neste planeta que nunca vai se cansar de ouvi-la falar sobre seu bebê, seu filho, o filho adulto que ela jamais imaginaria viver sem. É uma ordem não natural das coisas, e ela vai passar o resto de sua vida tentando encontrar o chão sob seus pés.

O segredo da empatia é sentir como se não tivesse feito nada e ainda assim você se sente exausto – significa que você fez a coisa certa. 

Empatia tem um preço. Vai te chacoalhar e te tirar da sua zona de conforto e te colocar no lugar dela. Será necessário ir além de apenas imaginar a vida dela, sua dor, sua perda e a grandeza de tudo isso. Você irá carregar todos esses sentimentos como um casaco pesado e ensopado. Vai te levar à beira das lágrimas. 

E é aí que você vai querer parar. 

Mas a empatia vai além dos limites da compaixão e da pena.

A empatia fará você sentir como se não tivesse feito nada além de permitir que ela continue mergulhada na tristeza.

A empatia vai desligar a sua vontade de consertar seu mundo quebrado e fará com que você se sente sobre os escombros junto dela. (assista o vídeo)

Empatia é invisível aos que passam, mas para uma mãe em luto é a única coisa que coloca um pouco de cor em seu mundo novamente.

O poder da empatia dará a ela a liberdade de amar um filho que ela mal conheceu.

O poder da empatia é profundo. 

Você sente como se não tivesse feito nada, pois fisicamente você fez muito pouco, apenas segurou a sua mão, sentou-se silenciosamente e ouviu. 

Mas na verdade, você moveu montanhas.

"Aprendi que as pessoas se esquecem do que você diz e se esquecem do que você fez, mas as pessoas jamais irão esquecer o que você as fez sentir."

Maya Angelou


***
Sobre Franchesca Cox*
Ela escreve, ela pinta, ela se esforça para escolher o AMOR a todo momento. Junte-se ao seu heArtwork no Instagram e Facebook.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Lembre-se das Mães de Coração Partido


Este é o meu segundo dia das mães. É também a segunda vez que encaro esta data sem a presença física do meu filho, Noah, mas com a certeza absoluta de que ele está bem perto de mim.

A data deveria ser repleta de alegria, mas é cinza. Amarga. Sem graça.

Mesmo assim, preciso sobreviver a ela.

Como se não bastasse a dor que carregamos dentro do peito pela ausência de nossos filhos, nós, mães com o coração partido, ainda precisamos lidar com a desinformação de pessoas antes tão próximas e que hoje acreditam que o silêncio é a melhor alternativa. 

Não as julgo, pois antigamente eu também não saberia como lidar com esta situação, e peço perdão caso tenha ferido o sentimento de alguém quando optei pelo silêncio ao invés do conforto. 

Mas a vida me colocou nesta posição. Creio que meu filhote tinha sim uma missão nessa Terra, acredito que seu legado deva continuar vivo, um legado de amor, muito amor.

Então, escolhi disseminar o conhecimento que tenho adquirido, para que as pessoas aprendam com a morte, e não apenas a ignore. 

Para que as pessoas disseminem o amor, confortando umas as outras. 

Deixo aqui um pedido em meu nome, e em nome de todos os pais em luto: por favor, não nos ignore. Nem hoje, nem nunca.

Dispensamos seus conselhos e suas frases prontas, repletas de ‘pelo menos ele não sofreu’, ‘ele cumpriu seu tempo’,  ‘Deus precisava de outro anjo’ ou ‘Você terá outros filhos’... 

Mas aceitamos, de coração aberto, o seu carinho, seu abraço, seu reconhecimento e sua amizade. 

A tradução abaixo fala sobre como confortar uma mãe em luto nesse dia das mães. Escrito pela mãe de anjo Lexi Behrndt, originalmente em seu site Scribbles and Crumbs em 2015 e este ano publicado novamente na Still Standing Magazine

São sete pedidos muito simples, que toda mãe (e pai) em luto gostaria de fazer aos seus amigos e familiares.  

Espero que gostem.




7 Maneiras de Lembrar das Mães de Coração Partido neste Dia Das Mães


6 de Maio de 2016 por Lexi Behrndt


Tradução/Translation: Roberta Modulo (Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother to an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br


Neste Dia das Mães, lembre-se das mães de coração partido.

Lembre-se daquelas com o coração de mãe e nenhum filho para chamar de seu. 

Lembre-se daquelas com os braços dolorosamente vazios. 

Lembre-se daquelas com os olhos cansados de noites sem sono, sem conseguir dormir com saudade do pequenino que capturou seu coração de mãe no instante em que eles se conheceram. 

Lembre-se daquelas que nunca tiveram seus ‘primeiros’: primeiro sorriso, primeiro aniversário, primeiro dia de aula, nem mesmo os primeiros choros. 

Lembre-se daquelas que jamais ouvirão “mamãe” daqueles pequeninos lábios.   


Esta vida pode ser cruel, mas juntos, nós podemos torná-la um lugar seguro para as mamães com o coração partido neste Dia das Mães.

Se você tem uma mamãe com o coração partido em sua vida – pode ser uma amiga ou um familiar, faça com que este dia seja um pouco mais fácil para ela. 

Lembre-se dela. 

Reconheça-a.

Aqui estão sete maneiras de amá-la neste dia:

1. Se ela perdeu um filho, diga o nome de seu filho. 

Esta é a coisa mais importante que você pode fazer por ela neste dia: dizer o nome de seu filho. Diga seu apelido. Fale qualquer coisa que a faça entender que você está se lembrando de seu filho neste dia. Não importa quão desconfortável você se sinta, saiba que ela certamente não se esqueceu. Deixe com que ela saiba que você também não esqueceu. 

2. Se ela perdeu seu filho único, reconheça sua maternidade. 

Como minha querida amiga que perdeu sua filha de (quase) 4 anos disse esse ano: “Eu quero que as pessoas se lembrem que eu ainda sou mãe.”  Se ela perdeu seu filho único, ela certamente ainda é mãe, como sempre será, ainda que seu filho não esteja mais em seus braços. Por favor, lembre-se disso. Você não tem ideia do quanto o reconhecimento, até mesmo o menor de todos, pode amenizar o peso em seu coração. 

3. Mesmo que ela tenha outro filho, ainda assim a dor é muito real. 

Não importa quantos filhos ela tenha, isso jamais ameniza a dor de perder um ou mais filhos. Cada filho é único.  Cada um é insubstituível.

4. Reconheça seu coração de mãe. 

Para aquelas que desejam ser mães, mas enfrentam a infertilidade ou as coisas nunca deram certo, por favor, reconheça-as. Há mulheres caminhando por aí com filhos e filhas que não deram a luz, mas que elas amam como seus. Reconheça estas mamães. Faça com que saibam que elas são valorizadas e amadas.

5. Permita que ela esteja onde quiser neste dia. 

Ela pode não saber o que será mais benéfico – a distração de uma companhia ou a solidão. Reduza suas expectativas neste dia. Ela não está ‘louca’, ela está sofrendo. Tenha piedade. Tenha compreensão. Se ela quiser ficar chorosa e largada o dia todo, deixe que fique. Se ela decidir que será mais fácil não falar sobre isso, não pressione. Dê a ela a liberdade de ser quem ela é, e faça com que ela saiba que você irá amá-la, não importa em que maneira ela esteja.

6. Não faça suposições. 

Se você supõe que ela não gostaria de ser incluída em algum tipo de reunião, deixe-a decidir. Apenas aproxime-se. Ame-a. Convide-a. Receba-a e deixe que ela decida o que ela consegue encarar. Se ela escolher não vir, não leve isso pelo lado pessoal e saiba que ela está apenas tentando sobreviver a um dia difícil.

7. Ame-a. 

Talvez você more longe, envie um bilhete ou uma nota de 5 dólares para um café ou um sorvete. Se você está por perto, pergunte como você pode expressar seu amor por ela neste dia. Talvez ela queira participar de uma reunião familiar, certifique-se que ela saiba que é bem vinda. Talvez ela não queira sair de casa, convide-a para o jantar. Talvez ela queira se encher de porcarias e assistir Netflix de pijamas, jantando sorvete; ofereça-se para levar vinho e pipoca. Seja um amigo, e lembre-a que ela é amada.

Lembre-se dessas mães de coração partido. 

Com sua gentileza, seu amor e compaixão, elas podem enfrentar o mais difícil dos dias. 

Mostre que você se importa.


Noah pelos olhos de seu primo, Matheus.


segunda-feira, 2 de maio de 2016

Somos Todas Mães


Sinal de alerta no ar... Dia das mães se aproximando...

De todas as datas comemorativas, talvez esta seja a mais complicada para mim. 

Já ouvi dizer, inúmeras vezes, que o primeiro ano de luto é o mais difícil, pois nos deparamos com situações diversas, pela primeira vez. O primeiro Natal, o primeiro aniversário, o primeiro dia das mães e dos pais etc.

Depois, tudo ficaria mais fácil, pois eu já saberia o que estava por vir e poderia me preparar.

Mas esta 'regra' não funcionou para mim. 

É uma de minhas características (e não me orgulho disso) sofrer por antecipação. Em tudo. E assim, sofro duas vezes. Sempre.

Com a aproximação de datas especiais, eu sofro antes, durante e depois, e já ter passado por isso antes, não ameniza a minha dor. Pelo contrário, aumenta. 

Sim, porque sei exatamente o tamanho do vazio que carrego dentro do peito e quanta falta o Noah me faz todos os dias.

Datas comemorativas só intensificam a dor da saudade. 

Saber que não vou poder buscar meu indiozinho ou meu vampirinho na escola, não ansiar a chegada do Coelhinho da Páscoa ou Papai Noel, não enrolar brigadeiros ou embalar presentes... é devastador...

Se tudo é tão doloroso, porque será que o Dia das Mães seja tão complicado?

Porque além da ausência do meu filho, há o esquecimento. A falta de reconhecimento. As temidas frases ‘clichês’.  

É triste saber que a morte de um filho anula a maternidade da mãe e a paternidade do pai.

Mas não deveria ser assim. Não precisa ser assim. Afinal, somos todas mães. 

Abaixo a tradução do artigo escrito por Emily Long, que descreve lindamente a maternidade.


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Somos Todas Mães

30 de abril de 2015, por Emily Long*

Tradução/Translation: Roberta Modulo 
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother of an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br




Minha maternidade sem filhos não é tão diferente da sua, você que têm a alegria e o privilégio de criar seus filhos aqui na Terra.

Aparentemente, nossa maternidade parece ser diferente. 

A minha é raramente reconhecida pela sociedade em geral ou até mesmo por aqueles que estão próximos a mim. 

Minha casa é quieta e não há bagunça de brinquedos, ou roupas e sapatos espalhados. Minha agenda é preenchida por trabalho, amigos e tempo livre - que gira em torno dos meus interesses, ao invés de aulas de ballet, de futebol ou de música e atividades escolares. Eu posso sair com amigos ou viajar de última hora sem precisar me preocupar com babás ou creches. 

Meu Dia das Mães não será preenchido com um pequenino e criativo café da manhã na cama, ou cartões escritos em giz de cera, ou bracinhos ao redor do meu pescoço. Terei sorte se minha maternidade for ao menos reconhecida no Dia das Mães.

São essas as maneiras que tornam nossa maternidade diferente. Não invejo a sua versão de maternidade. Eu sou profundamente grata por você ter seu filho ao seu lado e não ter que entender a dor de dizer adeus para sempre. Tenho momentos de ciúmes e inveja quando desejo desesperadamente que eu pudesse conhecer a sua maternidade também, mas eu jamais desejo que você conhecesse a minha.

Apesar de nossas diferenças, também há muitas semelhanças em nossa experiência como mães. A força do amor profundo e avassalador que senti quando segurei o corpinho minúsculo de minha filha... Como eu olhei seu rosto e procurei por pequenos traços de mim mesma e de seu pai, em sua feição minúscula. Olhar para ela e me maravilhar com sua a perfeição, ainda que seu corpo estivesse parado e em silêncio, e pensar comigo mesma que nunca havia visto ninguém tão lindo.

E então, naqueles meses após seu nascimento e morte, eu também vivenciei noites sem dormir, choro sem fim e uma exaustão avassaladora. Exceto que eu experimentei noites sem dormir acordando apenas com os sonhos do choro de meu bebê, pulando da cama para pegá-la e então perceber que ela não estava lá. O interminável choro e lamento que explode das profundezas do meu sofrimento é por ela, ao invés de sua fome, sua solidão ou desconforto. 

Minha exaustão veio da tentativa de dar sentido a um mundo no qual o impensável não era apenas possível, mas também real e estava acontecendo comigo.

Como você, eu também marco as etapas do desenvolvimento de minha filha. Talvez não exatamente como você, que tem uma criança que vive e respira, e pode acompanhar o cumprimento dessas etapas, mas da minha própria maneira. 

Eu marco as etapas do desenvolvimento de minha filha em minha mente, enquanto imagino como ela seria. Ela estaria engatinhando agora, ou talvez ela já estivesse andando. Eu a levaria para seu primeiro dia no jardim da infância, a sua primeira festa do pijama, à sua primeira festinha na escola. Eu a inscreveria nas aulas de música, futebol ou ginástica. Ela iria aprender a ler, aprenderia as capitais dos estados e, pelo amor de Deus, eu espero que ela fosse melhor em matemática do que eu.

Ao assistir as crianças ao meu redor, cada momento e a cada etapa alcançada, eu marco em minha mente e em meu coração, fico imaginando quem ela seria e como teria sido assisti-la alcançando essas etapas. Eu sinto aquela dorzinha por dentro enquanto imagino-a crescendo e tornando-se ela mesma, assim como outras mães contam que se sentem enquanto assistem seus filhos crescerem e tornarem-se eles mesmos e mais independentes. 

Nós duas pensamos, em nossa própria maneira, quem ele será/seria? Em quem ele se tornará/tornaria?

Todas as mães devem aprender a deixar seus filhos irem. 

Mães com filhos vivos deixam seus filhos partirem em pequenos momentos, ao longo do tempo. Seu primeiro dia de escola. Sua primeira festa do pijama. Quando eles entram no Ensino Médio. Quando eles têm seu primeiro encontro. Quando eles tiram sua carteira de motorista. O dia que eles vão morar sozinhos. O dia em que eles se casam. Quando eles têm seus próprios filhos. Aqueles momentos em que eles te observam envelhecer e começam a cuidar mais de você. Cada pequeno momento de desapego e confiança de que seus filhos estarão bem. Confiando em seus filhos ao navegarem pelo mundo, mais e mais independentes, contando cada vez menos do nosso auxílio.

Para mim, o desapego foi súbito e imprevisível. 

Veio de repente, e antes que eu entendesse o que estava acontecendo, ela partiu. Em um instante ela estava aqui e na sequência, fui forçada a dizer adeus para sempre. Naquele momento, e em todos os momentos desde então, eu tenho que acreditar que, onde quer que ela esteja agora, ela está bem e está encontrando seu caminho mesmo sem mim. Sou lembrada de meu desapego a todo instante que poderia ter sido e cada etapa não concluída de como sua vida teria sido ao meu lado.

Então, você entende que, de certa forma nossa experiência de maternidade é muito diferente. Mas, no entanto, não somos tão diferentes assim.

Nós amamos.

Nós cuidamos.

Nós choramos.

Nós sonhamos.

Nós honramos.

Nós imaginamos.

Nós nos perguntamos.

E todas nós devemos um dia deixá-los seguir.

Estamos nisso juntas, não importa como nossa maternidade pareça do lado de fora.

Porque somos mães.

Somos todas mães.


* Sobre Emily Long
Emily é mãe de duas filhas que partiram muito cedo.  Na faculdade, ela vivenciou a morte de seu noivo. Alguns meses depois, sua filha, Grace, nasceu sem vida. Depois de muito anos, Emily finalmente procurou apoio e criou uma comunidade que a ajudou a encontrar beleza na vida novamente, após suas perdas. Quando sofreu o aborto de sua segunda filha, Lily, fornecer apoio para outros pais em luto tornou-se uma paixão e uma missão. Emily é psicoterapeuta de apoio ao sofrimento e defensora das famílias que sofrem a perda de seus filhos. Ela tem interesse em trabalhar com mães sem filhos vivos e é autora do livro “Invisible Mothers” (Mães Invisíveis).
Emily acrescenta ao seu trabalho com famílias em sofrimento, o equilíbrio entre experiência pessoal e profissional. Além de promover apoio individual às mães e pais em luto, Emily se esforça para instruir e melhorar o cuidado às mães em luto por profissionais da saúde e outros psicoterapeutas. Ela escreve e instrui através de seu website http://emilyrlong.com.



quinta-feira, 3 de março de 2016

Superação


Superação. 

Para mim, uma palavra fora de contexto quando o assunto é a perda de um filho.

De acordo com o dicionário, superar significa: vencer, ficar superior a, levar vantagem a, exceder, fazer desaparecer; cortar, desfazer, destruir, etc.

Nenhum desses verbos reflete a realidade ou traduz o sentimento pós-perda, mas devo confessar que dentre as palavras e frases que ouvimos com tanta frequência (e que supostamente nos confortariam), o incentivo à superação está sempre presente. 

Há certa pressa da sociedade para que voltemos a ser o que éramos antes, para que esse assunto “constrangedor” não esteja mais presente nas conversas, para que tudo volte a ser como era...

E assim, também nos cobramos, pois acreditamos que um dia a dor vai passar, que a vida vai voltar ao ‘normal’ e pronto. Quando Noah morreu, eu acreditei que em um ano tudo estaria bem e internalizei isso; respeitei meu sofrimento e minhas lágrimas durante este período e entrei em pânico quando percebi que o primeiro ano se aproximava e eu não estava nem ao menos perto de onde eu gostaria de estar.

Lembro-me de uma tarde de novembro, quando meu coração já não aguentava mais segurar a tristeza e eu desabei nos braços do Rika... entre um soluço e outro eu dizia: “mas já faz quase um ano e ainda dói como se fosse ontem!”. 

Hoje, 14 meses e 13 dias depois, ainda dói como se fosse ontem... talvez até mais, pois agora sei bem como é viver sem meu filhote... 

O texto que traduzi abaixo fala sobre este processo, esta descoberta... a descoberta de um pai, Andy, sobre o processo de ‘superação’. 

A verdade é que não há o que ser superado... Nunca mais voltarei a ser como eu era. Hoje sou mãe, vivi a maior tragédia da minha vida há 14 meses, e preciso viver o resto de minha vida sem meu pequenino. 

Acho que a palavra certa deveria ser Sobreviver...

Eu não quero ‘superar’ a morte de meu filho. Quero aprender a sobreviver a ela, bem como aprender a sobreviver sem ele...

Ao invés de dizer: “você vai superar”, acho que o certo seria: “você vai sobreviver”.

É nisso que precisamos acreditar.


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Um Pai: Sobre Superação 

26 de novembro de 2015 por  Andy Gillette **


Texto original em/Source: www.stillstandingmag.com
Tradução/Translation: Roberta Modulo (Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother of an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br


“Você vai superar isso.”

Se você é um pai que sofreu com a perda, sabe muito bem a dor dessas palavras bem intencionadas. 

Não é surpreendente que os outros nos digam isso. Quero dizer, eu mesmo não entendia isso. Eu me lembro da primeira vez que me dei conta de que a morte de meu filho, e o sofrimento que estávamos sentindo, não seria uma breve ‘fase’ de nossas vidas. 

Estávamos em um grupo de apoio de pais que haviam passado por aborto, perda ao nascer ou perda infantil. Simon havia morrido há apenas duas semanas, e sua morte estava tão fresca em nossas mentes que quando uma mãe começou a contar sua história e a descrever sua caminhada pelo hospital, minha esposa e eu começamos a tremer e chorar.

Enquanto ela contava sua história, engasgada por soluços intermitentes, ela concluiu dizendo, “hoje completam 6 meses.”

Minha esposa e eu nos olhamos com olhos arregalados, surpresos por testemunhar tamanha emoção, ainda tão exposta após um período ‘tão longo’.

Mas então, outra mãe falou, e nos contou sobre a dor de assistir os estudantes de sua vizinhança concluindo o ensino médio. Desabando em lágrimas, ela disse: “meu filho morreu há 18 anos... ele deveria estar com eles...”.

Parece besteira escrever isso agora, mas me lembro de estar sentado no carro após a reunião, surpreso e assustado com a enorme imensidão de tempo que acabava de se abrir diante de nós. Isso não seria uma ponta de dor seguida por um curta cauda de tristeza. Mas ter alguém que te conte algo e então internalizar isso, não é a mesma coisa. 

Naqueles primeiros meses, eu ainda tinha em mente que, um dia, nós iríamos ‘superar’.

Meio ano depois, nós ainda estávamos tristes e eu estava em busca de respostas. Conversando com outro pai, eu perguntei, “Quando que a gente para de se sentir assim. Quanto tempo levou até que, pela primeira vez, você percebesse que ainda não havia pensado em seu filho naquele dia, porque – você sabe - as coisas estavam começando a cicatrizar um pouco?”

Ele olhou para baixo, parou por um longo tempo e então disse: “Já faz mais de sete anos, e ele ainda é a primeira coisa que eu penso todos os dias. Eu não acho que seja como outras coisas – como o fim de um relacionamento ou um amigo que vai embora, que você mentalmente supera. Ele sempre está lá.”

Eu não deveria, mas eu estava – mais uma vez – surpreso pela magnitude de tudo isso. Como poderia doer por tanto tempo? Não fazia sentido algum. Eu tinha em minha mente que você poderia “superar” essa tragédia, e que nós – especialmente eu – estávamos fracassando em fazê-lo. Eu ficava frustrado comigo mesmo por não seguir em frente rápido o suficiente, e precisava lutar com a vontade de não ficar frustrado com minha esposa, por continuar permitindo que a tristeza movesse nossas vidas. 

Eu pedi o conselho de um último pai, um amigo que tem sido um mentor para mim. Ele perdeu a filha quando ela tinha três anos, segurando-a nos braços enquanto um tumor cerebral roubava seu último suspiro. Eu perguntei a ele: “O que você fez para superar? Você encontrou algum livro com bons conselhos ou se deparou com alguma atividade que acelerasse o processo para sentir-se melhor? Eu sinto que não estou fazendo o suficiente, ou eu não estou fazendo as coisas certas.”

Ele pensou nisso por um minuto, silenciosamente procurando pelas palavras certas, quando finalmente quebrou o silêncio: ”Sabe, você não supera de verdade, ou acelera as coisas. Vai levar o tempo que for necessário. É muito mais sobre como você vive com isso.”  

Naquela conversa, finalmente me dei conta. Você vive com a dor; você vive através da dor; você vive através da perda. É muito mais sobre encontrar maneiras de lidar com essa coisa nova do que superá-la.

Levou muito tempo antes que eu percebesse que isso não está relacionado ao retorno à minha vida antiga; é sobre adaptar (e aceitar) minha nova vida. 

Levou muito tempo antes que eu percebesse que não estou fracassando se eu não estou “superando” isso ou melhorando imediatamente.

Levou muito tempo antes que eu percebesse que vai levar muito tempo.

E que não será o mesmo.

E tudo bem.



** Sobre Andy Gillette
Andy Gillette é o pai de Simon Alexander Gillette, que nasceu já sem vida em fevereiro de 2014. Ele e sua esposa Genevieve se aproximaram muito após esta experiência, e encontram conforto ao pensar em seu pequenino e ao ajudar outros pais que sofrem uma perda. Eles estão felizes por estarem envolvidos com o grupo de apoio Arlington, VA MIS: Mis Share 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Do seu primeiro ao meu último





Encontrar uma motivação, um novo estímulo, uma razão para continuar a viver sem o pedacinho mais importante de meu coração, é uma das lições que devo aprender após a perda de meu filho.

Não é que nós, pais em luto, menosprezamos a vida de quem está ao nosso redor. Muito pelo contrário, a gratidão por tê-los à nossa volta, transborda de nossos corações. O fato é que, nosso bebezinho é parte da gente, e viver sem ele nos parece ser simplesmente sem propósito.

Mas a vida precisa continuar, e estímulos devem ser encontrados para que continuemos nossa jornada enquanto mantemos a memória do nosso pequenino viva.

Sinto que mudei muito após a morte do Noah... Embora ainda esteja extremamente fragilizada e dolorida, percebo que sou diferente. Por ele... Por causa dele... Aprendi a falar o que realmente sinto, aprendi a amar sem restrições, aprendi a aceitar quem eu sou e tento oferecer um pouco de conforto a esse mundo egoísta que vivemos.

Lições que só um pequenino poderia ter me ensinado...

Às vezes dá vontade de desistir de tudo, principalmente quando a onda de luto e tristeza me atinge com toda a força e me derruba de novo, de novo e de novo. 

Mas por ele e por causa dele EU NÃO VOU DESISTIR.

Esse lindo texto de Emily Long descreve tão brilhantemente o que passa em nossos corações, e mostra que realmente somos uma irmandade de pessoas que não se conhecem, mas dividem a dor da perda de um filho, e a gratidão por tê-lo conhecido.

Com carinho e o coração cheio de amor e muita saudade do meu pequenino,

Roberta 



Do seu primeiro ao meu último

18 de janeiro de 2016, por Emily Long*

Texto original em/Source: http://stillstandingmag.com/2016/01/from-your-first-to-my-last/
Tradução/Translation: Roberta Modulo (Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother of an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br


Você é meu primeiro pensamento ao acordar de manhã.

Você caminha comigo em cada passo do meu dia.

Ninguém pode vê-lo, mas você está perto de mim. Sem ser visto, sem ser escutado, mas nunca longe de minha consciência.

E tudo o que eu faço é por causa de você.

Cada risada, cada lágrima, cada conexão, cada ação. É tudo por causa de você e por você.

Você caminha comigo, meu precioso filho invisível. Eu caminho por você.

Eu caminho.
Eu fico em pé.
Eu corro.
Eu crio.
Eu dou.
Eu toco.
Eu amo.
Eu sou.

Eu sou mais por causa de você. Eu vivo mais plenamente, mais vivamente, e mais ricamente porque você viveu. Eu vivo seu legado.

Eu sinto, eu sofro, eu amo mais profundamente porque você viveu e morreu.

Eu caminho com você todo dia, sua mão imaginária com a minha, porque você não pode andar na Terra comigo.

Você é meu e eu sou sua, a cada passo e a cada momento de cada dia.

Você é meu último pensamento antes de dormir à noite.

Você é meu primeiro e último. Meu sempre.

Sou tão grata por você ter vivido.

Você viverá para sempre através de mim.

Do seu primeiro ao meu último. Sempre.




* Sobre Emily Long 
Emily é mãe de duas filhas que partiram muito cedo. Na faculdade, ela vivenciou a morte de seu noivo. Alguns meses depois, sua filha, Grace, nasceu sem vida. Depois de muitos anos, Emily finalmente procurou apoio e criou uma comunidade que a ajudou a encontrar beleza na vida novamente, após suas perdas. Quando sofreu o aborto de sua segunda filha, Lily, fornecer apoio para outros pais em luto tornou-se uma paixão e uma missão. Emily é psicoterapeuta de apoio ao sofrimento e defensora das famílias que sofrem a perda de seus filhos. Ela tem interesse em trabalhar com mães sem filhos vivos e é autora do livro “Invisible Mothers” (Mães Invisíveis). 
Emily acrescenta ao seu trabalho com famílias em sofrimento, o equilíbrio entre experiência pessoal e profissional. Além de promover apoio individual às mães e pais em luto, Emily se esforça para instruir e melhorar o cuidado às mães em luto por profissionais da saúde e outros psicoterapeutas. Ela escreve e instrui através de seu website http://emilyrlong.com.

domingo, 20 de dezembro de 2015

O Dia Dezenove de Dezembro



Um ano se passou, e a ferida continua tão exposta, tão dolorida. 
A verdade é que não sabemos como o processo de luto acontece, e um ano parece tanto tempo. 

Não para mim.

Há um ano eu vivia o que possivelmente seria o momento mais difícil de toda minha vida. 
Sem dúvida, a pior tragédia na história de qualquer pai e mãe que precisa enfrentar a ordem não natural das coisas.

Há um ano, perdi meu filho. 
Meu bebê. 
Meu Noah. 
Meu amor.

Há um ano vivo, ou sobrevivo, sem um pedaço do meu coração. 
Uma dor dilacerante e não há remédio para amenizá-la. 
Preciso viver com ela e sobreviver a ela.

Dizem que somos fortalecidos ao enfrentar momentos complexos na vida. 
Eu ainda não consigo acreditar nas coisas desta maneira.

Não me sinto forte. 

Me sinto como uma sobrevivente, pois vivi o impossível. 
E continuo respirando.

Meu pequeno é a primeira coisinha que penso todas as manhãs e os domingos ainda são extremamente dolorosos para mim. 
Saber que tenho mais um dia, mais uma semana à frente, que devo fazer planos para o futuro, e não poder colocar meu bebê neles...  
Reunir a família para mais um almoço, e sentir a falta constante de um pequenino integrante tão desejado...

Tudo isso dói demais...

Em minhas muitas leituras pela internet, encontro conforto na experiência de mães e pais que sofrem dessa dor há um pouco mais de tempo que eu... são mais experientes no sofrimento e ajudam os ‘novatos’ com muito carinho. 

Uma delas é Angela Miller, autora do livro “You are the mother of all mothers” (você é a mãe de todas as mães, em tradução livre), que dentre centenas de mensagens de esperança, diz: “It takes invincible strength to mother a child you can no longer hold, see, touch, or hear. You are a superhero mama.”

É preciso uma força invencível para ser mãe  de uma criança que você não consegue mais segurar, ver, tocar ou ouvir. Você é uma Mamãe Super-Herói.
Angela Miller*

Embora seja extremamente difícil ser mãe de anjo, sou a mamãe do Noah, a mãe que ele escolheu e não há gratidão maior no mundo.

Hoje é um dia de muita saudade, que aperta o coração. 
Mas é também um dia de reflexão, tentar descobrir como encontrei forças para chegar até aqui, como continuarei seguindo e como continuarei honrando a memória do meu filhote.

A força para seguir em frente eu encontro em todos os beijos que eu mando para o céu...
Em todas as conversas que tenho com meu menininho...
Em todos os bichinhos de asas de anjo que parecem me cumprimentar às vezes...
Em todas as músicas que secretamente dedico ao Noah...

Com a ajuda de um marido maravilhoso (o melhor pai que o Noah poderia ter) uma família linda e amigos tão compreensivos, vou vivendo... tropeçando, caindo, chorando... mas me levanto e sigo... às vezes um pouco mais rápido, outras mais lentamente... mas vou regando o mundo com um pouco mais de amor... 

Um amor tão grande que só um pequenino poderia ter me ensinado...


*Conheça mais sobre Angela Miller e seu lindo projeto aqui.

"Sempre que a dor parece ser muita,
eu tendo lembrar como minha vida
seria menos linda
se nunca tivesse conhecido
o nosso tipo de amor."




quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Os Balões de Noah



Com Caraguá ao fundo e com uma mistura de sentimentos, nossos balões subiram ao céu levando muito amor ao nosso pequenino.

Gosto de imaginá-lo brincando com seus balõezinhos e retribuindo o amor que recebeu.






Foi um dia muito especial e quero agradecer com todo o meu coração todas as mensagens de carinho que recebemos. 

Me senti muito amada e com a sensação de dever cumprido: contei ao mundo sobre a existência do meu pequeno Noah e fui surpreendida com mensagens de pessoas que torcem por nós, mesmo em silêncio e mesmo sem conhecê-las pessoalmente.

O luto afasta muitas pessoas que antes eram tão próximas... mas traz para perto da gente pessoas lindas, que antes não eram tão próximas. Obrigada queridos, cada mensagem fez a diferença em nosso dia!

Por isso digo que nosso Noah é um mensageiro de amor. Veio ao mundo com pressa, mas deixou um rastro lindo por todos os lugares.

Muito amor e gratidão a toda minha família e amigos, que mesmo distantes fisicamente, estiveram presentes no primeiro aniversário do Noah e compreendem o quanto meu filho é precioso para mim.


Com carinho,


Roberta