Esse texto me fez pensar bastante... meu coração sempre dizia que eu deveria falar a verdade, não importa o momento. Mas nem sempre é fácil, pois o mundo espera que a gente sofra em silêncio, para que não deixe os outros desconfortáveis...
A Pergunta
15 DE MAIO DE 2015 POR LONI H. E. *
Texto original em/Source: http://stillstandingmag.com/2015/05/question-2/
Tradução/Translation: Roberta Modulo
(Mamãe orgulhosa de um anjo chamado Noah / Proud mother of an angel called Noah)
e-mail: contato@robertamodulo.com.br
Existem muitas perguntas básicas que as pessoas fazem quando estão começando a te conhecer. Você pode estar no caixa do supermercado comprando mantimentos e o caixa puxa uma conversa amigável ou você pode estar em uma pequena reunião de amigos onde conhece alguém novo.
A conversa começa e perguntam a você coisas como: O que você faz? Em que bairro você mora? Principalmente inocentes, as perguntas deste tipo tem o objetivo de conhecê-lo melhor, feitas por alguém com a melhor das intenções.
Antes da morte de minha filha, eu costumava lidar com essas conversas sem nenhum cuidado, frequentemente esquecendo a conversa em apenas alguns minutos. Agora, esses bate-papos fazem meu rosto corar e meu coração acelerar. Meus sentidos se aguçam e minha mente vagueia enquanto se prepara para a pergunta. Aparentemente inocente, a pergunta para conhecê-lo melhor... Você tem filhos?
Durante o primeiro ano após a morte de minha filha, eu percebia que às vezes eu prendia minha respiração sem motivo e a pergunta não vinha. Agora que eu tenho seu irmão de 1 ano de idade, percebo que a pergunta vem quase todas as vezes. Ele está sempre comigo, aconchegado em meu quadril, distribuindo sorrisos tímidos aos estranhos ao nosso redor. Ele é seu único filho? - eles perguntam.
Esta pergunta continua trazendo ansiedade e percebo que minhas respostas não ficaram mais sensatas ou graciosas do que há quase 3 anos. Às vezes percebo que ainda evito pessoas ou lugares para não ter que responder esta pergunta. Este não é um tópico novo e esta pergunta tem sido amplamente discutida em blogs e fóruns para pais em luto.
Todos nós temos nosso arsenal de respostas e nossa filosofia sobre como responder da melhor maneira. Minha filosofia tem sido sempre decidir no momento qual resposta será dada.
Ele é seu único filho?
Já tentei responder honestamente.
Não. Eu tenho uma filha. Ela morreu em 2012.
Quando respondo desta maneira, eu geralmente presencio olhos arregalados e um sorriso se transformar em uma cara fechada. Eles parecem expressar uma mistura de constrangimento, choque e tristeza. Eles geralmente se atrapalham com suas palavras, buscando a coisa certa para dizer. Às vezes, eles param de falar ou então pensam em algo para terminar a conversa rapidamente. Parece que eles mal podem esperar por minha partida, para que então eles possam apagar a trágica história de minha filha de suas mentes.
Já tentei responder com verdade parcial e então mudar de assunto.
Não. Eu também tenho uma filha. Eles crescem rápido. Meu filho ama as aulas de natação... Você também é nadador?
Eu respondo rapidamente e lanço um novo tópico esperando dar sequencia à conversa. Às vezes funciona. Outras vezes voltamos ao quantos anos tem minha filha e então devo finalmente revelar que ela morreu. De novo, voltamos ao constrangimento e desconforto.
Minha última opção é mentir.
Sim. Ele é meu único filho.
Por anos eu havia me convencido que não há problemas em responder desta maneira. Eu a carrego em meu coração e não estou negando sua existência, apenas não vale a pena a conversa incômoda – é melhor passar por isso e não fazer a pessoa se sentir mal por ter perguntado – não preciso passar por isso quando, provavelmente, nunca mais verei essa pessoa novamente.
Embora todas essas razões sejam válidas, nunca pareceu certo para mim, fingir que ela não existiu, pelo bem dos outros ou para meu próprio conforto. Levou muito tempo até que eu compreendesse porque parecia tão errado, e hoje finalmente sei a resposta.
Ao mantê-la em segredo eu temo estar alimentando a ignorância que a sociedade conserva sobre a perda infantil. Estou concordando que provavelmente seja melhor não falarmos sobre isso. Isto contraria tudo o que eu defendo e essa percepção me pegou de surpresa. Achei que eu estivesse promovendo a conscientização com meus textos e meu envolvimento com a comunidade de perda, porém eu perdi um passo importante. Se eu quero promover a conscientização eu preciso ser capaz de falar abertamente sobre a morte de minha filha com pessoas fora da comunidade de perda.
Como pais em luto, nós ansiamos por uma sociedade que compreenda nosso sofrimento e nos permita dizer o nome de nossos bebês. Nós nos esforçamos para cultivar uma cultura que tem consciência e que apoie aqueles que sofrem tal perda. Nós imploramos às pessoas que perguntem sobre nossos filhos e que lembrem seus aniversários, que saiam do desconforto de não saber exatamente o que dizer, mas digam alguma coisa. Como podemos esperar que eles façam isso se nós não somos capazes de fazê-los?
Eu escolho nunca mais manter minha filha em segredo. Eu escolho falar a minha verdade e permitir que os outros processem esta verdade da maneira que puderem. Isso pode fazer com que as pessoas se sintam tristes ou desconfortáveis, eles podem falar coisas erradas ou tentar terminar a conversa, pode parecer constrangedor para mim, mas ao menos eles conhecerão minha verdade. Eles saberão que meu bebê viveu.
Eu tenho um bebê maravilhoso de 16 meses e ele tem uma linda irmã mais velha que morreu. Ela completaria três anos de idade em Agosto. Esta é minha família e eu tenho tanto orgulho dela quanto dele. Obrigada por perguntar sobre eles.
Talvez eles aprendam com minha história e reavaliem esse tipo de conversa. Talvez eles revelem suas verdades para mim, e eu aprenda algo com eles. Talvez laços mais profundos sejam criados e as conversas de cotidiano não precisam ser mais tão superficiais. Talvez elas tenham mais significado. Talvez aquele estranho vá para casa com mais apreciação por seus próprios filhos. Talvez aquele estranho continue em contato e se torne um amigo.
Eu incentivo todos que estão lendo isso a falar suas verdades e ser você mesmo: autêntico, vulnerável, lindo. Não há problemas em ficar desconfortável. Atravessar esse desconforto e abrir seu coração pode promover algo realmente significativo e lindo. Criar mais consciência sobre a perda infantil pode começar com a gente.
* Sobre Loni H. E.
Loni é escritora, artista e presidente do Comitê de cuidados NILMDTS do Colorado (http://nilmdtsremembrance.org/), os quais a ajudaram em sua jornada de sofrimento. Ela e seu marido perderam sua primeira filha, Aisley, às 41 semanas durante o parto em 5 de agosto de 2012. Em janeiro de 2014 ela deu a luz ao irmãozinho de Aisley, Meyer, que saberá tudo sobre sua linda irmã. Ela é uma mãe melhor para ele por causa da Aisley.
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